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Carla - o destino cobra seu preço

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Posted by Leonardo Pereira | Posted in , , | Posted on 19:20


É isso. Ele não me entende e acho que nunca vai entender. André sempre foi um menino muito determinado. Nisso ele puxou ao pai e isso é o que eu acho mais irônico!
Desde pequeno esse garoto me enche a paciência com essa história do Boquinha "larga esse cara, mãe, ele num presta!", mas ele não percebe que o pai dele é muito importante na vila e fez muita coisa incrível por nós todos, principalmente por mim.
Eu nunca contei pro André porque consigo manter uma boa relação com o pai dele e agora percebi que deveria ter contado tudo de uma vez por todas.
Se não fosse pelo Boquinha, eu nunca ia me livrar do meu pai, nem do tio Oscar, do tio Nicolau e de todos os amigos deles que vinham em casa. O Boquinha foi um santo que apareceu na minha vida, isso sim!
Aí esse garoto me inventa essa história de campeonato de skate. Que diacho! Isso lá era profissão? Eu sempre disse pra ele ir trabalhar numa fábrica igual ao Lula, mas ele tinha um plano diferente.
Hoje faz exatamente dez anos que o André foi embora e eu ainda choro todas as noites. O Boquinha morreu duas semanas depois da viagem do filho e, na verdade, ele nem gostava muito do garoto por causa do trabalho que ele dava aqui na vila com essas histórias de ONGs e jornais de bairro, tudo isso atrasava o movimento por aqui e o Boquinha nunca fazia nada contra o meu menino.
Agora eu sei que deveria ter tentado mudar de vida antes, passei o tempo todo me preocupando em fazer o André me entender e aceitar o que eu tinha com o pai dele. Agora, um foi embora há muito tempo e o outro morreu.

André - enganado pela vida, iludido pelo destino

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Posted by Leonardo Pereira | Posted in , , , | Posted on 15:22

- Aaaah! - Foi o que se ouviu de André quando tentou - e errou feio - uma manobra simples com seu skate.
Não, não era nem de longe uma manobra difícil, mas, para ele, valia mais do que simplesmente encaixar a madeira no corrimão, daquilo dependia a mudança tão esperada em sua vida.
André morava com sua família - ele, cinco irmãos e a mãe - em um pequeno barraco no Capão Redondo, zona sul paulistana, onde, além dos problemas habituais de uma periferia, ainda podia contar com o agravante de ter como pai o responsável por todo o movimento ilícito da região, daí o motivo de não morarem juntos já que, além de André, Boquinha tinha mais uma coleção de filhos pelo bairro. A relação de Carla com a Boquinha, no entanto, era um tanto diferente do que se costuma ver, a mãe de André era devota, apoiava-o no que fosse necessário, defendia-o no "movimento" e sempre esteve disposta a dividir o marginal com outras tantas garotas durante sua adolescência.
Aquela manobra perdida significava uma chance única desperdiçada por André e ele sabia que aquilo não poderia acontecer novamente se quisesse o prêmio máximo na competição: uma vaga no Mundial, que seria disputado em New York. Esse era o plano, e era infalível. Bastava ele ganhar.
Sempre determinado e nunca iludido, André jamais acreditou no incentivo do Governo, por isso não ligava muito para o esporte, mas sim o para o que viria com ele: a chance de sair daqui e ir para um lugar mais justo. Era no que acreditava.
Hoje, dez anos depois, André já sabe que talvez também teria virado estatística se tivesse permanecido, mas percebeu que fugir durante o Mundial não fora uma ótima ideia. Já com seus 32 anos, sem estudo nem dinheiro, sabe que se estivesse no Brasil, pelo menos poderia andar pela rua tranquilamente
sem ser alvo da xenofobia exagerada norte-americana.
André, hoje em dia, pode comemorar apenas o título de funcionário do mês em uma das muitas lojas que empregam imigrantes ilegais em NY. Arrependido, triste e mal pago, André nunca mais ouviu falar de sua mãe. Como será que ela está?